quarta-feira, 16 de março de 2016

Aparição

A “Aparição” é um romance que tem como tema principal o problema da existência do homem no mundo.
A história concentra-se na personagem Alberto Soares que, depois da morte de seu pai, parte para Évora, onde vai lecionar durante um ano letivo num Liceu. Nesta sua estadia em Évora, Alberto irá procurar a verdade sobre a existência do “eu”. Este cruzar-se-á com várias pessoas que o ajudaram a tentar chegar à sua resposta: como por exemplo, as três irmãs Ana, Sofia e Cristina. Sofia tem um papel importante na história; através do seu ser provocador e problemático, esta vai estabelecer um tipo de relacionamento secreto com Alberto.
Outra personagem também relevante é o Carolino, conhecido por “Bexiguinha”, que é aluno de Alberto. Este tornar-se-á um “problema” para Alberto pois começa a ter comportamentos excessivos devido aos ciúmes sentidos, por causa do relacionamento de Alberto com Sofia.
No desenrolar da história, temos alguns acontecimentos que mudam o rumo da mesma, como por exemplo, o acidente trágico de carro que acabou com a vida de Cristina. Este episódio tornou o ambiente ainda mais tenso entre o triângulo amoroso, Alberto, Sofia e Carolino, acabando este por matar Sofia.
Nesta obra é visível o existencialismo através da procura do “eu” por Alberto.


«Penso, penso. Não, não penso: procuro. Outra vez. Não, não quero “saber”, sei já há tanto tempo… Mas nenhum saber conserva a força que estala no que é aparição. Porque o escrevo de novo? A verdade é que nada mais me importa. E todavia um estranho absurdo me ameaça: quero saber, ter, e uma aparição não se tem, porque não seria aparecer, seria estar, seria petrificar-se. Queria que a evidência me ficasse fulminante, aguda, com a sua sufocação, e aí, na angústia, eu criasse a minha vida, a reformasse.»

Altinino Tomás Gonçalves

Ó Virgens que passais

Ó virgens que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente
Que me transporte ao meu perdido Lar...

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruinas do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas;
Adormecei-me nessa voz... Cantai!

O poema “Ó Virgens que passais” é da autoria de António Nobre.
Este poema é um soneto (contém duas quadras e dois tercetos), a medida do verso é decassilábica (dez sílabas métricas), o esquema rimático é abab/abab/cdc/dcd. O tipo de rima em a e b é cruzada e interpolada em c e d.
Este poema trata de uma lembrança, do sujeito poético, da sua vivência nortenha onde era um costume as moças virem a cantar no regresso das tarefas hortícolas.
Baseando-nos nas linhas temáticas de António Nobre, regista-se neste soneto a evocação pela memória: “Que me transporte ao meu perdido Lar”; a oposição passado (infância feliz) /presente (vida de dor e de desencanto): “Todas aquelas ilusões antigas//Que eu vi morrer num sonho”); e o interesse pelo provinciano, pitoresco e popular, tendo em conta que este poema trata de uma lembrança de um costume: “Ó Virgens que passais, ao Sol-poente,/Pelas estradas ermas, a cantar!”
Em termos de recursos estilísticos, são usados a apóstrofe: “Ó Virgens que passais”, a enumeração: “O vinho, Graça, a formosura, o luar!”.

Altinino Tomás Gonçalves


Almada Negreiros

 José Sobral de Almada Negreiros nasceu numa terra designada Trindade (São Tomé e Príncipe) em 1893 e acabou por falecer em 1970, em Lisboa.
  Mais conhecido por Almada Negreiros, foi um artista multidisciplinar português, que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas e essencialmente à escrita (romance, poesia, ensaio, dramaturgia etc..), ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses.
 
Almada Negreiros é uma figura ímpar no panorama artístico português do século XX. O mesmo não frequentou qualquer escola de ensino artístico e o seu percurso levou-o a dedicar-se desde muito jovem ao desenho de humor. Mas a notoriedade que adquiriu no início de carreira prende-se, acima de tudo, com a escrita interventiva ou literária. Almada Negreiros teve um papel particularmente ativo na primeira vanguarda modernista, com importante contribuição para a dinâmica do grupo ligado à
Revista Orpheu, sendo a sua ação determinante para que essa publicação não se restringisse à área das letras.
 Almada Negreiros é uma figura ímpar no panorama artístico português do século XX. O mesmo não frequentou qualquer escola de ensino artístico e o seu percurso levou-o a dedicar-se desde muito jovem ao desenho de humor. Mas a notoriedade que adquiriu no início de carreira prende-se, acima de tudo, com a escrita interventiva ou literária. Almada Negreiros teve um papel particularmente ativo na primeira vanguarda modernista, com importante contribuição para a dinâmica do grupo ligado à Revista Orpheu, sendo a sua ação determinante para que essa publicação não se restringisse à área das letras.
 Almada Negreiros assumiu um papel central na dinâmica do futurismo em Portugal mas também, posicionou-se de maneira excecional em termos de carreira artística. Esteve em Paris, como quase todos os candidatos a artistas faziam, mas fê-lo atrasado dos companheiros de geração e por um período curto, sem verdadeiramente se harmonizar com o meio artístico parisiense. Com a sua admiração por Picasso, a partir da década de 1920, Almada aproxima-se do neoclassicismo. Utiliza frequentemente deformações e deslocações anatómicas (evocativas da vertente surrealista de Picasso).
 Almada Negreiros ocupou uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses, sendo uma figura ímpar no panorama artístico português do século XX.
 Almada reage ao acolhimento negativo à publicação do segundo número da revista Orpheu, e utiliza o conhecido médico e escritor Júlio Dantas como símbolo das posições mais retrógradas. O pretexto imediato é a peça de teatro Soror Mariana Alcoforado deste autor, ao qual responde com o Manifesto Anti-Dantas. Em 1917, e publica a novela K4 O Quadrado Azul. Ainda nesse mesmo ano, colabora no único número de revista Portugal Futurista.
 A intervenção pública de Almada Negreiros e a sua obra não marcaram o primeiro quartel do século XX. Ao contrário de companheiros próximos como Amadeo de Souza-Cardozo e Santa Maria, ambos mortos em 1918, a sua ação prolongou-se ao longo de várias décadas, sobrepondo-se à segunda e terceira geração de modernistas.
 Almada acompanha a renovação do gosto que ocorre nas artes gráficas. É neste "ambiente de modernidade comedida" que irão surgir encomendas para o café A Brasileira e o Bristol Club. Autorretrato num grupo, em 1925, é uma das duas pinturas de Almada para A Brasileira. Este retrato coletivo marca a época dos cenáculos intelectuais, tal como aparecem no romance Nome de Guerra, que Almada começou a escrever nesse mesmo ano.
 Outras obras que merecem também destaque é o Retrato de Fernando Pessoa, 1954 (de que realizou uma 2.ª versão, simétrica, em 1964).
Em 1957 realiza um grupo de abstrações geométricas, a preto e branco, que expõe, nesse mesmo ano, na I Exposição Gulbenkian e que abrem caminho para a obra mais importante da sua última fase, o painel em pedra gravada intitulado Começar, 1968-69, para o átrio do edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa.

Altinino Tomás Gonçalves